segunda-feira, 9 de junho de 2008

Quarta-feira de cinzas

Esse texto foi um exercício para um curso de criação literária que eu fazia. Não cheguei a entregá-lo, mas não quero me desfazer dele. Apesar de achar que falta algo. Quem quiser, pode opinar e dizer o que acha que falta.

O ponteiro pequeno estava no seis. O grande, no dois. Seis e dez da manhã de uma cinza quarta-feira de cinzas. Ela tinha escolhido passar a última noite de carnaval comigo e agora estávamos ali, em frente à estação de trens da Avenida Ana Costa. Tinha passado a última noite de carnaval comigo porque aquela era a última noite que ela passaria comigo, de qualquer jeito. Foi uma espécie de prêmio que ela me deu por ser tão bom pra ela. Mas eu nunca quis ser bom pra ela, queria mesmo era ser imprescindível. Preferia que ela me achasse uma pessoa ruim, mas que não conseguisse viver sem mim. Mas eu nunca conseguiria isso. Nem com ela e nem com ninguém

O baile estava cheio, e Isabella não saiu do meu lado um só instante. Mesmo assim eu estava meio desconcertado. Preferia passar o carnaval em casa.

Ela me contou que iria embora enquanto lanchávamos uma noite na lanchonete de um amigo. O pai tinha sido transferido pra Miracatu, no Vale do Ribeira. Ele já iria embora na semana seguinte, mas deixaria a mulher e as duas filhas pra arrumar a mudança. Isabella tinha 18 anos e não ofereceria muita resistência. Na verdade eu entendia que não havia mesmo como ela ficar sem um motivo forte como emprego ou faculdade. E eu, encarando a realidade, nunca seria um bom motivo para ninguém ficar.

E agora eu estava ali, sentado em cima da mala dela, que passamos pra buscar em sua casa depois do baile. A mãe tinha ido na véspera. Não me sentia cansado. Sentia como se uma frota de caminhões tivesse passado pro cima de tudo o que eu sentia e do que tínhamos vivido. Ela, apesar de ser dez anos mais nova que eu, era bem mais serena e sabia que não adiantava que trocássemos endereços. Eu ia escrever para ela meia dúzia de vezes, se tanto, ela responderia. Mas seria só isso, por toda a vida.

O trem sairia às sete. De onde estava sentado, a vi descendo as escadinhas da estação com o bilhete em mãos. Olhei novamente para o relógio no topo da fachada deteriorada. O ponteiro pequeno entre o seis e o sete. O grande, no oito. Vinte para as sete.

Ela me deu um beijo e sentou ao meu lado. Perguntou se eu não me importava com a garoa caindo. Respondi que não. É claro que não era com isso que eu me importava naquele momento. Ela ficou em silêncio, sentada ao meu lado com um ar angelical de quem queria mostrar que no fundo, não tinha culpa nenhuma daquilo tudo. Eu, como no fundo sabia que no fundo ela não tinha culpa, abracei ela e a beijei. O ponteiro grande entre o oito e o nove.

Tenho a nítida impressão que tudo acabou mesmo quando ela se levantou. Me puxou pelas mãos. Sorriu pra mim, talvez pela penúltima vez. Subimos aqueles três ou quatro degraus carregados de uma melancolia que só mesmo o amanhecer de uma quarta-feira de cinzas podia proporcionar. Com a diferença de que eu não estava triste por causa do fim do carnaval.

Cada passo que eu dei naquele saguão, em direção a plataforma mal cuidada, me fazia lembrar de cada uma das vivências que tive com ela. Desde o dia em que a conheci, num banquinho de praia numa tarde de inverno, até aquela última maldita marchinha naquele maldito baile. Eu olhava para as telhas no alto da estação, com pombas que pareciam dormir. E pensava que não era justo que eu passasse todo dia em frente a essa maldita estação pra lembrar desse maldito dia.

E quando ela parou, já pronta pra embarcar, me disse entre soluços que quis passar a noite em um baile porque quis misturar a última lembrança da cidade com a minha. E eu querendo que a cidade se danasse, não disse nada a ela. O mesmo relógio que eu vi na fachada da estação estava ali. Parecia perseguição. Os dois ponteiros em cima do sete. Olhei com raiva pro relógio. E um pouco dessa raiva sobrou pra Isabela também.

Nos beijamos. De um jeito que eu não esperava que fosse ser nosso último beijo. Ela entrou no trem e eu fiquei parado, como nos filmes. Um desses filmes em que não há final feliz. Há somente o final. E ponto. Dei a volta e nem sequer esperei o trem partir. Atravessei sozinho o saguão que há pouco atravessara com ela. E saí na chuva daquela cinza quarta-feira de cinzas. Olhei para trás pela última vez. O ponteiro grande no sete. O pequeno no um.

Um comentário:

Débora disse...

Adorei essa proximidade com a região, primeira vez que observo isso numa texto seu.
Te amo! And keep writing!
Beijos