segunda-feira, 5 de maio de 2008

Raconteurs - Consolers of the Lonely

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Eu tenho completa aversão pelo termo “roqueiro”.

Mesmo quando, aos meus 13 anos, gostava de Iron Maiden, Metallica e Black Sabath, essa nomenclatura me dava um certo desconforto. Na época, é claro que eu rejeitava tudo que não tivesse guitarras bem altas e/ou distorcidas. Só fui entender que música é muito mais do que aquilo alguns anos depois, mas isso é outra história.

Como o meu gosto por música é acumulativo, não deixei de gostar dessas coisas. Pra mim foi muito fácil descobrir blues, folk, jazz e música brasileira, porque meu pai sempre gostou de tudo isso. Então não me custou (e não custa até hoje) ouvir Powerslave* e Construção**, um atrás do outro.

Mas com o passar dos anos eu comecei a ficar alérgico a moleques cabeludos com camiseta preta cheias de caveiras ou monstros. Aqueles que não possuem o mínimo argumento para mostrar aos outros porque suas bandas favoritas são melhores do que as outras. Aqueles que vivem querendo convencer os outros disso, sem saber que gosto musical não se impõe. É por isso que quando alguém vem me falar sobre “atitude rock’n’roll” e tals me dá uma tremenda vontade de vomitar.

Porém, eu preciso falar aqui sobre um disco de rock’n’roll. Como nós todos somos eternas contradições, espero ao menos que essa seja aceitável.

Há um bom tempo que não surge nenhuma banda fazendo barulho e melodia numa sincronia tão perfeita quanto a que faz o Raconteurs. É sim, puro rock’n’roll, mas sem ser somente uma barulheira sem sentido. Talvez pelo fato de que as duas cabeças por trás da banda sejam caras que se firmaram no circuito alternativo com música que muitos talvez não considerem rock. Jack White, o famoso do grupo, é líder do White Stripes, banda cult já há uns bons cinco ou seis anos. Além dele, tem Brendan Benson, cantor indie-folk que se não é muito popular, é bem cotado nas rodinhas alternativas.

O Raconteurs surgiu há cerca de dois anos com o elogiadíssimo disco de estréia Broken Boy Soldiers, em que praticamente todas as músicas são excelentes. A banda, uma espécie de descanso das carreiras “oficiais” de seus líderes acabou tomando proporções que talvez eles não esperassem. E um segundo disco era inevitável.

E ele veio. Tirando a pressão pelo segundo disco, é um trabalho em que mais uma vez o peso das guitarras se coloca a serviço das melodias. A impressão é a de que faltou muita coisa a ser dita em Broken Boy Soldiers e que a banda resolveu dizer tudo de uma vez agora. Destaque para a faixa título, Consolers of the Lonely, misturando swing com guitarras de hard-rock da melhor qualidade.

Logo vem You don’t me understand, uma balada de baixo e piano com vocal e backings muito bem elaborados. Old Enough entra logo em seguida para mostrar, com sua harmonia folk, a diversidade das composições. Coisa que segue ao longo do disco. A seqüência inicial se encerra em grande estilo com The Switch and the Spur, minha preferida. Com metais que chamam tanto a atenção quanto os de Conquest, do mais recente disco de Jack pelo White Stripes.

Depois disso ainda tem muita coisa boa. Hard Rock, blues, guitarreira suja beirando o punk, folk e baladas. Um disco que prova de vez por todas que o Raconteurs deve imediatamente deixar de ser considerado apenas um projeto paralelo.

* Iron Maiden
** Chico Buarque

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