Download: Simon & Garfunkel - Greatest HitsNós morávamos de frente para o pátio da Fepasa onde ficavam as locomotivas. Imaginem o que era acordar com apito de trem quase todo dia. Do lado de nosso sobrado tinha uma quadra de bocha, e só quem já viu uma partida desse esporte "geriátrico" é que sabe o barulho que ele produz. Então, íamos dormir com esse ruído. A janela do meu quarto abria-se para um telhado. Eu gostava de ficar sentado lá, atirando pedrinhas no topo, para vê-las rolando até a calha. Em dias de chuva eu ficava horas, às vezes olhando um mesmo lugar onde a água batia.
Meu quarto não tinha televisão e nem aparelho de som. Vídeo cassete e DVD então, nem pensar. Às vezes minha mãe me colocava de castigo, que era ficar no quarto, sem direito ao convívio com a família na sala e nem à televisão. Então eu ficava lendo. Eu, que tinha acabado de aprender esse prazer solitário, terminei muitos livros assim, meio entre as lágrimas de um garoto castigado.
É claro que eu me ressentia de não assistir televisão. Mas acho que o lugar da sala do qual eu mais sentia falta nessas horas era o pedaço em que ficava um velho toca-discos da CCE que meu pai tinha desde os tempos de solteiro. Abaixo dele, ficavam os discos de vinil. Uma respeitável coleção de discos que, naquela época, não estavam fora de moda. Aliás, naqueles tempos a gente ouvia música juntos, todos na sala. Não é como hoje, que cada um tem seu mp3-player e ouve sozinho suas músicas preferidas.
Essa coleção de discos era muito variada. Eu, obviamente, rejeitava alguns e adorava outros. Na verdade, eu tinha os meus cinco preferidos. Na época, quando alguma música me pegava de jeito, eu a escutava inúmeras vezes, sem cansar. Me lembro de dias em que estava arrumado pra ir pra escola, mas ficava sentado, do lado das caixas de som, ouvindo a mesma música pla quinta vez só naquela manhã.
Este disco, que motiva a primeira das reminiscências, "Greatest Hits" de Paul Simon & Art Garfunkel, rodou muito naquela vitrola. Depois de um tempo, não mais pelas mãos do meu pai, mas pelas minhas. Gostei da capa e resolvi ver o que tinha dentro. Foi assim que fiz com alguns daqueles discos. Algumas das músicas realmente eram fantásticas, quase hipnotizadoras. De lá pra cá, a carreira de nenhum dos dois individualmente me instigou muito, mas esse disco até hoje me traz lágrimas aos olhos em momentos de nostalgia desenfreada.
Eu tinha as minhas preferidas, é claro. Muito antes de saber que Mrs. Robinson foi trilha de “A primeira noite de um homem” (e mais ou menos na mesma época em que uma bandinha mixuruca como o Lemonheads regravou-a), essa era apenas a música que abria o disco de forma alegre, com uma batida de violão sensacional, pop-folk. Muitas vezes, depois disso eu colocava direto na balada country The Boxer e depois em The Sound of Silence, que foi uma das primeiras canções que eu escutava dez vezes por dia, coisa que acabou me ensinando um pouco do que era essa fascinação adolescente por rock’n’roll. Apesar de ser, oficialmente, uma balada, os riffs de guitarra ficavam na minha cabeça e o ritmo crescente me hipnotizava. Logo depois, vinha a vibrante I am a rock, que começava suave e virava uma dessas road-songs de uma hora pra outra. Adorava.
Naquela época, mudava-se o lado do disco. E é no lado B que tinha a minha favorita. Bridge over troubled water é, até hoje, uma dessas canções pop perfeitas. A maneira como ela começa, quase intimista, e como ela vai crescendo a medida que o tempo passa, com um final quase apoteótico, é uma das coisas que sempre procuro em música hoje em dia. Antes do fim ainda tinha El Condor Pasa (If I Could), meio bicho-grilo, mas muito bonita. O disco terminava com Cecília, que apesar da melodia animada, é uma grande música de dor-de-corno.
Depois de muito tempo, ainda paro pra ouvir esse disco. Depois de mais de 15 anos dos tempos do velho toca-discos da CCE, ainda me emociona um disco cheio de vigor e belas canções. Tenho em CD, mas dia desses ganhei um toca-discos (por coincidência, da CCE) e tive a curiosidade de ouvi-lo com aquele chiado que só os discos de vinil podem produzir. Voltei um pouco no tempo, para as tardes de sábado ensolaradas, em que antes de sair pra jogar bola na rua, escolhia um disco qualquer e escutava com o ouvido colado na caixa de som, com minha mãe achando que eu pudesse estar ficando louco. E, pensando bem, pode ser que ela estivesse certa.
Ah, e eu só fui ver “A primeira noite de um homem” há cerca de três anos. A trilha sonora ajudou para que eu gostasse mais do filme.
Meu quarto não tinha televisão e nem aparelho de som. Vídeo cassete e DVD então, nem pensar. Às vezes minha mãe me colocava de castigo, que era ficar no quarto, sem direito ao convívio com a família na sala e nem à televisão. Então eu ficava lendo. Eu, que tinha acabado de aprender esse prazer solitário, terminei muitos livros assim, meio entre as lágrimas de um garoto castigado.
É claro que eu me ressentia de não assistir televisão. Mas acho que o lugar da sala do qual eu mais sentia falta nessas horas era o pedaço em que ficava um velho toca-discos da CCE que meu pai tinha desde os tempos de solteiro. Abaixo dele, ficavam os discos de vinil. Uma respeitável coleção de discos que, naquela época, não estavam fora de moda. Aliás, naqueles tempos a gente ouvia música juntos, todos na sala. Não é como hoje, que cada um tem seu mp3-player e ouve sozinho suas músicas preferidas.
Essa coleção de discos era muito variada. Eu, obviamente, rejeitava alguns e adorava outros. Na verdade, eu tinha os meus cinco preferidos. Na época, quando alguma música me pegava de jeito, eu a escutava inúmeras vezes, sem cansar. Me lembro de dias em que estava arrumado pra ir pra escola, mas ficava sentado, do lado das caixas de som, ouvindo a mesma música pla quinta vez só naquela manhã.
Este disco, que motiva a primeira das reminiscências, "Greatest Hits" de Paul Simon & Art Garfunkel, rodou muito naquela vitrola. Depois de um tempo, não mais pelas mãos do meu pai, mas pelas minhas. Gostei da capa e resolvi ver o que tinha dentro. Foi assim que fiz com alguns daqueles discos. Algumas das músicas realmente eram fantásticas, quase hipnotizadoras. De lá pra cá, a carreira de nenhum dos dois individualmente me instigou muito, mas esse disco até hoje me traz lágrimas aos olhos em momentos de nostalgia desenfreada.
Eu tinha as minhas preferidas, é claro. Muito antes de saber que Mrs. Robinson foi trilha de “A primeira noite de um homem” (e mais ou menos na mesma época em que uma bandinha mixuruca como o Lemonheads regravou-a), essa era apenas a música que abria o disco de forma alegre, com uma batida de violão sensacional, pop-folk. Muitas vezes, depois disso eu colocava direto na balada country The Boxer e depois em The Sound of Silence, que foi uma das primeiras canções que eu escutava dez vezes por dia, coisa que acabou me ensinando um pouco do que era essa fascinação adolescente por rock’n’roll. Apesar de ser, oficialmente, uma balada, os riffs de guitarra ficavam na minha cabeça e o ritmo crescente me hipnotizava. Logo depois, vinha a vibrante I am a rock, que começava suave e virava uma dessas road-songs de uma hora pra outra. Adorava.
Naquela época, mudava-se o lado do disco. E é no lado B que tinha a minha favorita. Bridge over troubled water é, até hoje, uma dessas canções pop perfeitas. A maneira como ela começa, quase intimista, e como ela vai crescendo a medida que o tempo passa, com um final quase apoteótico, é uma das coisas que sempre procuro em música hoje em dia. Antes do fim ainda tinha El Condor Pasa (If I Could), meio bicho-grilo, mas muito bonita. O disco terminava com Cecília, que apesar da melodia animada, é uma grande música de dor-de-corno.
Depois de muito tempo, ainda paro pra ouvir esse disco. Depois de mais de 15 anos dos tempos do velho toca-discos da CCE, ainda me emociona um disco cheio de vigor e belas canções. Tenho em CD, mas dia desses ganhei um toca-discos (por coincidência, da CCE) e tive a curiosidade de ouvi-lo com aquele chiado que só os discos de vinil podem produzir. Voltei um pouco no tempo, para as tardes de sábado ensolaradas, em que antes de sair pra jogar bola na rua, escolhia um disco qualquer e escutava com o ouvido colado na caixa de som, com minha mãe achando que eu pudesse estar ficando louco. E, pensando bem, pode ser que ela estivesse certa.
Ah, e eu só fui ver “A primeira noite de um homem” há cerca de três anos. A trilha sonora ajudou para que eu gostasse mais do filme.
Um comentário:
Fiquei imaginando a sua carinha de menino vivendo essa situções...
E Simon & Garfunkel também foi uma pequena descoberta pra mim, logo que te conheci, lembra?!
Beijos
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