domingo, 23 de março de 2008

Eu queria ser um imbecil

A primeira vez que eu vi Sarah foi na fila do cinema. Ela estava na minha frente com o imbecil do namorado. A gente conhece um imbecil de longe e aquele cara tinha todo o jeito de ser um. Mesmo assim, ali, naquela fila de cinema, eu senti inveja dele. Senti inveja por ele estar com Sarah, uma menina linda por quem eu acabara de me apaixonar só por causa de um simples jogar de cabelos pra trás.
Naquele momento eu senti vontade de ser imbecil um pouco e só me preocupar com carros e baladas. Não que eu fosse um gênio, embora todo gênio tenha sua dose de imbecilidade. Não era, mas eu sabia que também não era nenhum idiota. E se fosse pra ter aquela menina linda ali comigo, naquela fila de cinema, eu até toparia ser um completo idiota.
Ela queria ver o novo filme do Woody Allen. Ele, “Tempestade de Ossos 4”. Brigavam. E eu pensando como é que alguém podia brigar com uma garota como aquela. Ele, cheio de si, decidiu sozinho que cada um iria ver seu filme e depois se encontrariam. Eu, que já tinha visto o filme do Woody Allen, juro que não pensei duas vezes e comprei ingresso pra ver de novo. Entrei na sala e, meio hesitante, sentei ao lado dela, que parecia chorar baixinho. Assim que me sentei a seu lado, percebi que minha cara-de-pau só me permitiria chegar até ali. Minha insegurança não me deixaria ir além. E então eu fiquei ali, olhando pra ela.
Ela estava com a cabeça encostada na poltrona, o cabelo jogado na cara. Ali, à meia luz com que a sala fica iluminada antes de começar os traillers, parecia ainda mais bonita. Fiquei olhando pra ela, abraçada aos joelhos e com os pés na cadeira, por um bom tempo, até que ela, sem olhar pra mim, de repente me surpreendeu:
- Você gosta de Woody Allen?
Mal pude disfarçar minha timidez e minha vergonha por ter sido descoberto. Mas me enchi de uma coragem que não tinha e resolvi ir em frente:
- Gosto muito. Na verdade, esse filme eu já vi.
- E porque entrou aqui?
- Impulso. Vi você entrando e fiquei com vontade de ver de novo
Ela deu um sorriso e me olhou pela primeira vez nos olhos. Foi quando eu tive a certeza de estar completamente entregue.
- Sabe de uma coisa? – ela disse, ainda me olhando e sorrindo.
- O que?
- Também já vi esse filme!
- E porque entrou?
- Queria um pretexto pra brigar com ele. - Apontando com a cabeça na direção da porta.
- Porque você simplesmente não foi embora?
- Por que não!
- Quer ir embora agora?
Só Deus sabe a força que reuni pra dizer estas palavras. Ela voltou a olhar para o vazio acima de nossas cabeças, jogou os cabelos pra trás, deu um sorriso, uma mordida nos lábios que me quase me matou, e levantou. Foi caminhando até o fim da fileira de cadeiras e eu continuava sentando, olhando ela caminhar. Quando chegou no corredor, olhou pra trás e disse, sorrindo:
- Você não vem?

3 comentários:

Anônimo disse...

Excelente texto, Roberto.
Como a Helena havia falado no curso, dá pra sentir os personagens e todo o clima que os envolve.
Parabéns pelo texto e pelo blog!
Abraço!

Vesper Lynd disse...

oie! eu já disse que adorei esse texto, né.. especialmente o nome do filme.... Agora tem que postar o da última aula!

E quanto a ter dois blogs, isso é fácil para quem não tem muito o que fazer, hehehe...

até sábado!

Débora disse...

Assim não vale! Posta esse conto lindo e depois fica um mês sem atualizar? Tá, vou te dar um desconto pq vc anda muito atarefado com suas novas atribuições... ;)
Lindo, lindo, lindo!
Beijo, amor!